Alunos “jornalistas”

Durante três meses, os alunos do 2º ano da Escola Sesi de Petrópolis, em Petrópolis, a 72 quilômetros do Rio de Janeiro, trabalharam em um jornal sobre a escola: Fique por Dentro com o 2º Ano. A professora Cristiane Alves queria que eles produzissem textos com propósito comunicativo real e avançassem na escrita. A maioria apresentava escrita alfabética, mas alguns ainda tinham de avançar na produção textual. “Fazer um jornal requer várias capacidades. Pensar na pauta, entrevistar e fazer textos. Todos participaram com o que já sabiam e aprenderam com os colegas”, ela explica.

Para iniciar o trabalho e durante o percurso, Cristiane pesquisou na internet alguns jornais e um site de notícias feito para crianças e projetou tudo na lousa digital. Diariamente, a classe lia reportagens e outros textos do gênero jornalístico, o que alimentava as ideias para o jornal. Ela também planejou o esquema de trabalho: as reportagens seriam feitas em duplas ou trios, as produções passariam por revisões coletivas e a turma elegeria as que seriam publicadas.

Depois de entrevistar, hora de escrever

A ampliação do número de prédios da escola foi eleita pelo grupo como tema da reportagem da primeira página da publicação. Para viabilizar isso, Cristiane agendou uma entrevista coletiva com a diretora. A meninada pensou nas questões, e ficou combinado que todos se responsabilizariam por tomar nota das respostas.

Terminada a conversa com a diretora, Cristiane orientou a turma a transformar o que tinha sido falado em um texto escrito coletivamente. “É um aprendizado riquíssimo das duas modalidades da língua, a oral e a escrita. A primeira se organiza de modo diverso da segunda. É preciso fazer mudanças na passagem de uma para a outra e tomar cuidados. Não faz sentido, por exemplo, transcrever as hesitações do entrevistado ou outras marcas próprias da oralidade, como pra e “, diz Liane Aguiar, formadora do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic). Depois de algumas revisões em grupo, a produção ficou pronta.

Em seguida, as crianças trabalharam em duplas ou trios, conforme planejado pela professora. Com bloquinhos e pranchetas nas mãos, Maria Eduarda Ribeiro, Raquel de Mello e Sara de Mello, todas com 8 anos, entrevistaram os colegas que tinham visitado o planetário da cidade. Mauro Alves e João Paulo Mendonça, com 8 anos também, ficaram responsáveis por buscar informações para uma reportagem sobre os projetos da Educação Infantil. Encerradas as entrevistas, Cristiane pediu que as informações ouvidas e anotadas fossem digitadas no computador. Com base nelas, os alunos elaboraram os textos levando em conta os critérios utilizados no texto fruto da entrevista coletiva e o que vinham aprendendo ao longo do processo, por meio dos exemplos apresentados pela professora. Uma boa estratégia é ensinar as crianças a gravar as entrevistas e recorrer ao áudio depois. Mais do que transpor o que foi escrito à mão para o computador, esse momento fez os estudantes olharem para o texto novamente com o objetivo de melhorá-lo, realizando a retextualização.

Depois de concluir a primeira versão do texto, eles tinham de observar as marcas vermelhas que sublinhavam termos na tela do computador e se valer delas para melhorar a produção. Cristiane habilitou a ferramenta de correção automática propositalmente. A maior parte das crianças já escrevia com autonomia e por isso conseguiria compreender e considerar as indicações.

Além de ter um grande apelo entre os estudantes, o uso do computador representa uma grande mudança social, atual e necessária na escola. Emilia Ferreiro, psicolinguista argentina radicada no México, aborda o assunto no livro O Ingresso na Escrita e nas Culturas do Escrito. Ela ressalta que os benefícios trazidos pelo computador para a produção de texto são claros e que a escola precisa encontrar espaço na sala de aula para a tecnologia. A autora destaca: “A instituição escolar é altamente conservadora, resistente à incorporação de novas tecnologias que signifiquem uma ruptura radical com práticas anteriores. A tecnologia dos PCs e da internet dá acesso a um espaço incerto, incontrolável; monitor e teclado servem para ver, ler, escrever, ouvir e brincar. Muitas mudanças simultâneas para uma instituição tão conservadora como a escola”.

Fonte: Revista Nova Escola

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