Como as crianças canadenses aprendem na escola?

Tive uma semana longa e intensa! Desde segunda-feira, estive trabalhando com o professor Greg Farrel, da Secretaria de Educação do Estado de Ontário (Canadá). Fomos a Caraguatatuba e São Paulo (SP), onde foram apresentados, em palestras e encontros com diretores de escolas e professores, vários aspectos do sistema de educação que é, hoje, considerado um dos melhores do mundo. Ainda sentindo o cansaço resultante da profundidade das aprendizagens que vivenciei nesses dias, ocorreu-me compartilhar aqui algumas ideias que podem muito colaborar com as famílias.

Um dos aspectos mais ricos apresentados diz respeito ao fato de que, em Ontário, todas as experiências escolares vivenciadas por crianças nas pré-escolas de tempo integral têm por objetivo seu bem-estar físico e intelectual. Isso significa que elas não são obrigadas a aprender em situações escolares formais e desinteressantes. Ao contrário, são convidadas a participar em ricos ambientes de descoberta os conteúdos definidos pelo currículo escolar a partir de questões e problemas colocados pelo mundo real. Denominada Inquiry Based Learning and Play Based Learning, a metodologia utilizada pelas novas pré-escolas sugerem que a base do trabalho é feita de perguntas reais que os pequenos nos fazem a respeito de tudo e de todos.

Um dos trabalhos citados, por exemplo, apresentou diversas questões feitas por eles, em uma roda de conversa, a respeito de conteúdos associados ao clima. Perguntas como “De onde vem a neve?”, “Por que, por quem e como são criados os flocos de neve?”, “Quem constrói as cavernas onde os bichos se escondem?” orientaram o trabalho em direção ao estudo climático. A partir daí, junto com seus professores, todos considerados aprendizes, voltaram-se para pesquisar em diversas fontes, como sites, livros ilustrados e entrevista com especialistas, transformando a curiosidade infantil em verdadeiro método investigativo.

Também se utilizaram de algumas brincadeiras para simular experiências com água, calor e frio, criando a própria chuva e a neve no interior da classe. A partir daí, textos, blogs, seminários e livros ilustrados foram produzidos pelas crianças e as descobertas foram divulgadas para o restante da escola. Ao longo do processo, outras surgiram, ajudando as crianças a internalizarem e tomarem consciência de suas aprendizagens. Ao fim, novas frentes de construção de conhecimentos foram criadas, possibilitando que elas pensassem sobre o impacto do homem na natureza, ampliando suas investigações sobre questões a respeito da existência dos primeiros aborígenes no país e as formas de ocupação humana na Terra.

Crianças tão pequenas produziram tudo isso? É o que eu imagino que você esteja se perguntando. Pois bem… essa é a contribuição tão rica da experiência trazida pelo professor Greg Farrell esta semana para que possamos nos inspirar e buscar transformar nossas escolas e, quem sabe, até as relações de nossos filhos com o conhecimento. A aprendizagem baseada na investigação permite olharmos e escutarmos as vozes das crianças como ponto de partida para a modificação de práticas educativas em direção à formação de pessoas mais criativas e colaborativas.

Saber perguntar, aceitar os erros e acertos e buscar as formas mais elaboradas como os conhecimentos humanos têm sido construídos é hoje exigência mais do que necessária para ajudar as crianças a viverem nas sociedades complexas do século XXI. Mais do que prepará-las para o mundo do trabalho em atividades repetitivas e memorizantes, o que aprendemos durante essa semana é que elas podem se tornar curiosas, investigativas e criativas em um mundo que necessita de um ambiente sustentável onde todos possam compartilhar de maneira saudável o prazer de aprender.

Fonte: Revista Crescer
Por: Gisela Wajskop
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