Formatura na Educação Infantil

Um dia desses, eu estava conversando com um grupo de pessoas com quem convivo semanalmente, mas não se conhece muito bem. Papo vai, papo vem e o assunto foi parar em filhos e escola. Uma mulher começou a questionar vários aspectos da instituição em que a única filha dela estudava e, entre as queixas, estava a de que não haveria formatura no final do ano.

Nessa hora, a única coisa que eu pude pensar é: “Como assim? A filha dela está na Educação Infantil. Que formatura é essa? Ainda existe escola que faz isso?”. Os argumentos dela eram de que um sobrinho teria a solenidade e ela mesma havia tido, por isso, estava achando muita falta de sensibilidade da escola em não realizar o evento.

Qual o propósito de trazer para o universo infantil um evento estritamente do mundo adulto? Ao concluir a primeira etapa da Educação Básica, a criança não se graduou nem se formou. O que ela fez foi vivenciar inúmeras situações que ampliaram seus saberes, construir conhecimentos em diferentes áreas e ampliar a convivência fora do âmbito da instituição familiar. Nessa etapa (se bem planejada pedagogicamente e coerente com a concepção de criança e de processo de ensino e aprendizagem na faixa etária), boas intervenções também a auxiliaram a construir sua autonomia.

Até então, tudo o que passou foi só o começo da longa jornada escolar. Um começo muito feliz, a meu ver, uma vez que, atualmente, a grande maioria das creches e pré-escolas têm como orientação os pressupostos do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (clique aqui para acessar o primeiro volume), que consideram as particularidades do mundo infantil e preveem um planejamento coerente com o que sabemos sobre a criança, seus saberes e suas necessidades de aprendizagem.

Características de uma criança

Por que parte da sociedade insiste tanto para que as crianças experimentem e vivenciem o mundo como se fossem adultos?

Já é sabido (e muito divulgado) que a infância é muito especial, dura pouquíssimo tempo e precisa ser preservada. Há estudos e pesquisas que nos mostram que a criança não é um adulto em miniatura, mas um indivíduo com características próprias, dentre as quais se destacam o brincar, o fazer de conta e a intensa necessidade de agir, interagir, mexer, experimentar, perguntar e ousar na maior parte do tempo. Essas atitudes vão diminuindo ou sendo canalizadas na medida em que nos tornamos adultos.

Querer que a criança vivencie uma formatura – um momento longo de discursos, mensagens e  de espera – é desconsiderar o universo infantil. Portanto, não tem sentido fazer esse tipo de evento se nosso foco é a criança! Como bem observou uma professora que assumiu recentemente uma turma de 5 anos, a criança é mais feliz porque vive o presente, o aqui e o agora.

Coerência com as práticas sociais

Assim como nas práticas sociais, o final de ano é um momento de confraternização, de estar junto com os colegas que nos acompanharam diariamente durante tanto tempo e, no caso da Educação Infantil, geralmente durante alguns anos. Com isso em mente, o que podemos fazer para celebrar? Planejar algo que tenha a criança como foco e deixar tempo e espaço para brincar, brincar muito!

É claro que, se considerarmos o universo infantil, será bem mais bacana se essa reunião for num local onde a turma possa brincar muito, experimentar jogos e brincadeiras que nem sempre estão presentes no dia a dia, ir a um parque diferente ou a um sítio, fazer um piquenique coletivo. Para programar esse dia, podemos pedir a ajuda das próprias crianças. É possível celebrar só com a turma ou envolver as outras classes, os familiares e todos os funcionários da escola. A opção fica a cargo do que é possível e adequado, sempre partindo de uma concepção de criança como indivíduo com características específicas e não como um adulto em miniatura.

Você concorda? Como é na sua escola?

FONTE: GESTÃO ESCOLAR

Blog das coordenadoras pedagógicas: a gestão escolar vista de dentro da escola e na prática

POR: Leninha Ruiz