Sobre a formação da consciência crítica

Situação real em um clube do Rio de Janeiro: um menino de aproximadamente 10 anos jogava futebol enquanto seu avô tentava chamá-lo para ir para casa. Após algumas tentativas, o avô começou a tentar convencer o neto usando alguns argumentos:

– Estou cansado… chegamos aqui de manhã e já são 2 da tarde…. Vamos, fulano.

O menino olhava para o avô e permanecia em campo. E o avô continuava:

– Vamos fulano… Eu já não sou mais moço… Tenho idade e estou cansado…. Quero ir pra casa descansar.

E o menino não se compadecia nem um pouco. Jogando a toalha e visivelmente sentindo-se sem opções, o avô sacou o telefone e ligou para a filha.

– Alô, filha? Olha, tem alguém que possa vir aqui buscar o fulano? Ele não quer ir embora de jeito nenhum e eu não to aguentando mais ficar aqui. Chegamos cedo e estou cansado… (pausa) Ah tá… quero ver conseguir convencer! (desligou o telefone).

Por volta de 20 minutos mais tarde chega o pai do garoto. Chama-o com tranquilidade e o menino reage dizendo que não quer ir. O pai apela, assim como o avô para uma suposta compaixão ao dizer que ele (pai) ainda nem havia almoçado. O menino saiu do campo com cara emburrada, o pai pediu um beijo, não o recebeu e foram embora.

Outra situação real: um menino de 11 anos, em um zoológico em Cascavel, pula a grade de segurança com uma placa visível de proibição, alimenta e atiça um tigre e tem seu braço arrancado na presença do pai. O que será que essas duas situações têm em comum? As regras, os limites e sua internalização.

Uma má compreensão da psicologia resultou em uma geração que tenta educar os filhos evitando traumatizá-los, o que no senso comum entendesse por chateá-los. Como então cumprir essa árdua tarefa? Convencendo. Explicações enormes são dadas a crianças pequenas na tentativa de convencê-los a pensar como os adultos e entender seus pontos de vista. Isso acontece tanto nas situações supérfluas tipo emprestar ou não um brinquedo para o amigo quanto nas importantes: comer, dormir, estudar, ir ao médico, etc. Tornou-se politicamente incorreto demandar que as crianças simplesmente obedeçam a regras.

Temos que levar em conta que esse método de educação tem começado em crianças menores de dois anos e permanecido até a vida adulta. Uma criança pequena não tem estrutura mental ou emocional para decidir o que é melhor para ela. Precisa de adultos que banquem suas opções e decisões para se sentirem seguras, mesmo que tentem se opor a eles o tempo todo. Faço uma importante ressalva que proibir e explicar o motivo é bem diferente de tentar convencer deixando a decisão nas mãos da criança.

A internalização das regras se dá da seguinte maneira: a criança passa por diversas situações onde as figuras de autoridade (pais, professores, inspetores, tios, avós e outros) sinalizam o que pode ou não ser feito; o que é certo e o que é errado. Aos poucos, a criança passa a ter aquelas figuras de autoridade dentro dela, configurando o que comumente é chamado de consciência crítica.

É essa consciência crítica que faz com que a criança tenha receio das consequências de seus atos. Esse receio é fundamental para a vida em sociedade. Ela tem que ter medo de punições, de que seus pais fiquem chateados com ela, de que o amigo não vai querer mais brincar etc. São vivências sem dúvida alguma dolorosas, mas são as que ensinam às crianças de que existem outras pessoas no mundo além delas. Ensina que elas não podem fazer o que bem entendem, pois terão que arcar com as consequências.

Crianças cada vez mais novas agem como pequenos adultos que determinam o que querem e o que não querem dentro de casa. Transformam-se em pequenos tiranos que mandam nos pais, mas morrem de medo do escuro ou até de formigas. Ficam agressivos testando limites com uma esperança secreta de que alguém se importe o suficiente, ou seja, forte o bastante para contê-los. Pais são diferentes de amigos. Não é preciso ser autoritário, mas é importante não se esquecer que é, e será durante muitos anos, autoridade. E como tal, tem a responsabilidade de zelar pelo que é melhor para o filho e não o que é mais conveniente ou o que dá menos trabalho.

Fonte: Mundo Ovo
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